segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um dia frio, um bom lugar para uma caçada...

Quem me conhece sabe o quanto eu sou apaixonada pelo ser humano. Adoro ouvir uma boa história, fazer perguntas, puxar conversa com desconhecidos, em suma: "assuntar" como se diz lá em "Minsgerais"... Adoro andar de Metrô, trem e toda sorte de transporte coletivo só para observar as pessoas e ficar imaginando a história de vida delas. Não sou louca, juro! Apenas uma curiosa nata.

E eu tenho especial predileção pelos velhinhos e velhinhas. Acho muito fofo vê-los andando nas ruas, no Metrô, sendo amparados pelos filhos e netos, jogando damas nas praças; as velhotas com os cabelos coloridos... Fico pensando quantas histórias aquele ser que está na Terra há mais tempo do que tem para contar e tenho um profundo respeito por essas criaturas. Mesmo porque, um dia pretendo me tornar uma velhinha revolucionária e andar de moto, saltar de paraquedas, pintar o cabelo de azul... Adoro!

No entanto, na mesma medida que sou fascinada pelo ser humano, sou capaz de desenvolver sentimentos  não tão nobres assim. Sou uma pessoa pacífica. Dou um jato para não entrar numa briga e uma frota inteira para sair dela. Costumo reagir mal, estourar pesado só quando sou muito provocada, mas muito mesmo!

Mas, por que estou falando isso? Porque fui tirada do sério por um velhinho, aliás, velhote, na acepção mais pejorativa que essa palavra pode ter... Mas, aviso: leiam bem antes a história antes de saírem por aí, dizendo que sou insensível, sem coração ou qualquer coisa semelhante.

Era um dia cinzento e frio pacas, daqueles em que a chuva tá na beiradinha para cair...
Um enxame de abelhas africanas tinha se instalado na minha cabeça: estava mega estressada com o trabalho, coisas que tinham que ser feitas, mas que não dependiam de mim e para piorar tudo: minha mãe estava internada, num vai não vai para uma mesa de cirurgia para operar a vesícula que estava me enlouquecendo. Apesar de ser uma operação relativamente de rotina, o caso dela não era dos mais fáceis. Enfim, as abelhas estavam mais alvoroçadas que nunca naquele dia...

Normalmente, sou muito detalhista e sempre presto atenção a tudo o que acontece à minha volta. No entanto, naquele dia foi totalmente ao contrário. Comecei a subir a rua da agência em que trabalhava e percebi que, ao passar por um carro, uma pessoa falou qualquer coisa. Não dei a mínima atenção e continuei a caminhada de mais ou menos 700 metros.

Poucos minutos depois, percebo que um carro começa a me acompanhar... Como não acreditei que alguém poderia seguir outra pessoa aquela hora da manhã, continuei o caminho tentando acalmar minhas abelhas. De repente, o carro acelerou, passou por mim e estacionou lá na frente. Ao me aproximar, percebo que o ocupante que acabara de sair daquele veículo é, na verdade, um velhote mais parecido com um personagem de desenho animado: boina cinza que tampava poucos e ralos fios brancos, calça cinza e casado de lã, cinza! Mais estereotipado, impossível! Ao passar pelo carro parado ele me pergunta num tom meio safado: "posso falar com você?"

Bem, é claro que não dei trela para ele, mesmo porque, minha mãe me ensinou a não falar com estranhos na rua, principalmente, se os estranhos demonstram ter quintas intenções. Em tempo: se ele fosse um homem alto dos olhos azuis e dirigisse um carrão, o tratamento seria o mesmo porque não é assim que se chama a atenção de uma mulher na rua.

Não contente por ter sido ignorado, o velhote safado entra no carro novamente, arranca e para (parar não tem mais acento, viu?) a mais ou menos cem metros dali...  Ao passar pelo carro parado, o velhote me chama: "hein, posso falar com você?" Naquele momento, toda a raiva, indignação e irritação que vinham sendo acumulados há tempos explodiu:

- O que o senhor quer falar comigo? A janela do carona estava aberta e me aproximei mais rápido que uma bala e coloquei a ponta do guarda-chuva na jugular dele. Explicando: por conta do tempo instável, carregava um guarda-chuva que mais parece uma barraca de praia de tão grande e que tem uma ponta de metal.

Ah! Explicando II: eu não estava vestida com nenhuma roupa curta, justa ou decotada que pudesse ter despertado os desejos daquele pobre infeliz. Trajava calça jeans, bota, sobretudo, blusa de gola alta e cachecol.

O velhote assustado com minha reação inesperada - já que, até aquele momento, fingia que não era comigo - disse:

- Calma, vamos conversar! Quer tomar um café comigo? Achei que poderíamos nos entender...

A indignação extrapolou e eu comecei a ficar ainda mais nervosa:

- O senhor não tem vergonha, não? A essa hora fica caçando mulher na rua? O senhor tem idade para ser meu avô! Por que não convida sua neta para tomar um café? Vou chamar a polícia se o senhor não ligar esse carro...

- Eu sou policial aposentado, disse o velhote.

- Ótimo, vou chamar seus colegas para verem o papelão que o senhor está fazendo!

- Você é muito mal educada, sua negrinha safada!

Confesso que, até então, eu estava calma, mas no momento em que as palavras "negra" e "safada" se juntaram na mesma frase, juro que minha vontade foi partir para cima daquele carro e arrancá-lo dali e dá-lhe umas boas guardachuvadas para ele aprender a não mexer com mulher na rua... No entanto, o bom senso e o horror a escândalos falaram mais alto e eu, numa fração de segundos apenas respondi:

- Me processe, então? Quer meu nome? Qual a sua alegação? Que o senhor me assediou na rua e eu não cedi "aos seus encantos?" Pois então, pode me processar! E vai andando... anda! Anda!

Dou minha cara a tapa que ele não contava com minha reação. Ele deu partida no carro e arrancou. É claro que fiquei por ali ainda uns cinco minutos para tomar fôlego e ver se ele não daria a volta no quarteirão.

Quando tive certeza  de que estava segura, entrei na Agência quando como se nada tivesse acontecido. Mas, quando a adrenalina baixou, um suor frio invadiu minhas mãos e as abelhas passaram a maquinar pensamentos do tipo: "e ele já viu você na rua e sabe onde você trabalha?"  e mais uma porção de "e ses" que tive que jogar um fumacê ali para elas se acalmarem...

Fiquei com medo, é claro. Mas, entrei debaixo das asas do meu Anjo da Guarda e me senti protegida.

O velhote? Esse deve estar procurando até agora o rumo de casa e garanto que ele nunca mais mexerá com ninguém.