sexta-feira, 18 de março de 2011

Três anos e uma saudade que só aumenta a cada dia...

O dia está acabando, são 23h05 quando começo a escrever esse post. O dia não foi fácil, a semana, o mês não tem sido fácil. Acho que meus meses de março nunca mais serão os mesmos desde um fatídico dia 18 de 2008. Como já disse em outros posts, meu pai partiu. Foi para outro mundo, outra dimensão, outro plano espiritual, há exatos três anos e 11 horas.

Confesso que não sei o que é pior: lidar com a morte iminente ou vê-la acontecendo ali, na nossa frente. E eu lidei com os dois. Via meu pai desaparecendo dia a dia, hora após hora. Tinha medo de sair de casa e não saber como o encontraria quando voltasse. Tinha medo de notar a diferença, mesmo sutil, do momento anterior em que o vira. Há um bom tempo, ele já havia deixado de ser aquele homem que conhecia: forte, até com uma certa barriguinha que teimava em cair para fora da calça. Mais do que isso, era um homem alegre, cheio de vida, que gostava de uma boa prosa mesmo que fosse com um desconhecido, de contar histórias do tempo de menino, dos tempos do trabalho. E gostava de cantar, em alto e bom som, mesmo que mal soubesse a letra da música e a cantava toda errada - dava até raiva. Se fosse o compositor, juro que processaria aquela criatura... De forma irremediável, ele foi se transformando rapidamente em outro homem: quieto, enfraquecido. Passava horas dormindo e, quando acordado, sempre ficava virado para o lado da parede. Nos últimos dias, sua voz forte mal era ouvida.

Nesse dia, lembro de acordar com os gritos do meu irmão que tinha tido um pesadelo. Passado o susto, levantei e fui para uma entrevista de emprego. Calculei que estaria livre por volta da hora do almoço e pensei em ligar para umas amigas que trabalhavam perto da Paulista, mas algo me fez desistir. Consegui o trabalho e resolvi  ir logo para casa para dar início às atividades e entregar o que me havia sido pedido o quanto antes. Comecei a trabalhar e, como a mesa do computador ficava em frente à porta, vi quando meu irmão e minha mãe passaram quase carregando-o para um banho. Iriam arrumá-lo para uma consulta com o oncologista à tarde.

Não gostei do que vi, mas resolvi aguardar. Ao fim do banho, ele parecia ter saído pior do que tinha entrado. Era quase meio dia, uma agonia, um peso que não sei descrever começaram a tomar conta do ambiente. Algo me dizia que aquele seria o "dia D". Minha irmã preparava o almoço e chegou no quarto para ver como andavam os preparativos e também não gostou do que viu. Ele estava com a expressão perdida, o olhar vidrado, era como se estivesse em algum lugar, talvez entre dois mundos... e estava.

Aos poucos, ele foi perdendo a consciência, estava indo... Lembro-me de colocar minhas mãos sobre as pernas dele e, em pensamento dizer: "pode ir pai, pode ir, ficaremos bem. Vá em paz com os Seres que o esperam". E ele foi. Fiz isso porque li dezenas de reportagens e artigos sobre os eventos ligados à morte,  antes, durante e depois que diziam que nesses momentos, não se pode chorar, se desesperar, pedir a volta de quem está partindo. É preciso, na verdade - e se é que é possível - manter a calma e, até mesmo, dizer para a alma ir para o Plano Espiritual. Ou seja, precisamos ser o mais altruístas possível e liberar o ente querido para que esse se sinta seguro e possa ir com os Guias Espirituais que ali o esperam.

Meu irmão se deitou junto dele e ali permaneceu calado. Saí do quarto e fui para a internet buscar o número do hospital em que ele fazia tratamento para pedir uma ambulância. Descobri que eles não tinha ambulância e que deveria telefonar para o Samu - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Liguei e minha irmã - acostumada com situações de emergência e com o vocabulário médico - pegou o telefone e explicou o caso. 15 minutos depois, ouvia aquele barulho ensurdecedor e inesquecível da sirene chegando na rua.

Antes disso, afastamos os móveis da sala para dar passagem à maca. Nesse momento, minha mãe já não estava no quarto e chorava copiosa e desesperadamente na sala. Quando os paramédicos chegaram, fizeram todos aqueles procedimentos que vemos nos filmes, sem sucesso. "Ele está parado e precisamos removê-lo imediatamente". Naquele momento, contamos com a sorte e ele foi removido para o hospital onde ele já fazia o tratamento.

Desci e pedi ao motorista para subir com a maca. Elevador? Desci os sete andares a pé mesmo, correndo, voando e voltei também pela escada. O zelador parou o elevador para que  pudessem descer. O antigo corpo forte estava amarrado a uma maca segura por duas pessoas. Tenho uma vaga lembrança daquele momento. Como o prédio fica em uma ruazinha, a chegada de uma ambulância ali era algo pouco fora do comum e deixou a vizinhança  "em polvorosa". Quando saímos, parece que todo mundo adivinhou o que estava acontecendo. Minha irmã seguiu com ele na ambulância e minha mãe, meu irmão e eu fomos atrás.

A chegada da ambulância no hospital já causou uma certa comoção mesmo sem saber quem estava dentro. Quando os funcionários descobriram que era meu pai - aquela figura falante, alegre, que mexia com conhecidos e desconhecidos - que chegava, aí sim, a comoção foi geral. O médico que o esperava para uma consulta veio imediatamente e não sabia o que dizer, a emoção também era visível nos olhos dele. Quando colocado no aparelho, as linhas retas e aquele famoso tuuuuuuuuuuuuuu que ouvimos nos filmes mostraram que era tarde demais.

Papéis e inúmeras ligações para parentes e conhecidos foi o que se seguiu... Não consegui chorar, não consegui me descabelar, gritar, pedir que ele voltasse. Não! Poucas lágrimas lavaram meu rosto. Acho que estava numa espécie de transe, de arrebatamento e só fui acreditar ao vê-lo no velório... Ali sim a ficha caiu. No entanto, algo curioso aconteceu:  parecia que meu pai estava de volta. O rosto antes emagrecido, havia retornado ao normal devido ao inchaço. A expressão dele era suave, tranquila. Parecia que dormia como alguém que há muito não fazia isso.  Estava bonito: camisa listrada de manga comprida, calça de sarja que eu mesmo havia passado quando fui até em casa buscar alguns documentos e as roupas dele.

Parecia aliviado, expressão de quem deixava essa vida ciente de que havia cumprido a missão na Terra com maestria e eu garanto que cumpriu! Se, até então, não havia chorado, ali foi que não consegui mesmo. A mensagem que ele me passou foi a de que estava em paz e que era para ficarmos em paz também. Diante disso, as lágrimas secaram de vez... Apesar disso, senti meu corpo paralisado e muito muito dolorido. Acredito que tenha somatizado a emoção e isso tenha travado meus músculos. Naquela noite, consegui dormir somente à base de um relaxante muscular que me desligou. No outro dia, a dor permanecia e na semana seguinte, por conta da queda da imunidade, uma infecção de urina me doou uma febre de quase 40º.

Pensar na morte nunca é agradável. Presenciá-la é algo que jamais havia pensado. Hoje, revivi cada minuto, cada segundo de três anos atrás. Era como se eu tivesse embarcado em uma máquina do tempo. E se houvesse tal dispositivo, tentaria voltar mais alguns anos. Faria algumas coisas diferentes. Teria dito algumas coisas que estavam em meu coração. Teria agradecido verbalmente por tudo, embora o tenha feito inúmeras vezes em pensamento. Teria abraçado ele mais vezes, teria prestado mais atenção nas lições embutidas em suas histórias. Teria... teria... Apesar disso, tenho ciência de que fiz o que podia ter feito. Briguei com ele para que ele não desistisse de lutar. Talvez seria mais paciente... talvez... talvez...Mas, agora, de que adianta?

Acredito que, de alguma forma, ele sabe o que se passa no meu coração e na minha cabeça. Sei que ele está bem, seguindo seu aprendizado em algum canto do universo. Talvez, ele esteja mexendo nos jardins, cuidando das plantas, coisas que ele gostava tanto de fazer... A tristeza começa a ir embora e dar lugar a um sentimento que não sei o que é... Mas, ela é teimosa e hora ou outra, vai aparecer novamente, mas é normal, né?

Sinto um aperto no peito quando vejo uma ambulância do Samu e isso piora quando escuto uma sirene. Sempre mentalizo: "vá em paz e que aconteça o melhor a quem quer que esteja aí dentro". Ontem vi uma tocando uma sirene igual a que ouvi naquele dia. Foi impossível conter uma lágrima teimosa que logo se foi.

Hoje, me resta repetir algo que foi dito no jantar de agora há pouco: "um brinde aos bons que se foram!!!!!"

Um comentário:

  1. Lindo texto!
    Espero que quando eu me for, minha filha tenha esse mesmo carinho ao lembrar de mim.

    Beijo,

    Marcel

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