Dia desses, minha irmã chegou com uma notícia nada agradável: uma colega de trabalho dela, de menos de 30 anos, está com leucemia e, em pleno tratamento. Ela, como uma pessoa caridosa que só, foi junto com outra colega ao hospital visitar a menina. Sim, disse “menina” porque, afinal de contas, uma moça com esse tempo de vida ainda está em “plena flor da idade”, não acham? Vi minha irmã chegar do hospital bastante abalada, dizendo que teve um choque ao ver a moça sem os cabelos e foi obrigada a segurar as lágrimas. No domingo, ela voltou ao hospital levando chocolates, frutas e uma revista. Repito: é a caridade em pessoa – aqui cabe um abrir de parênteses: apesar da marra e da chatice que aflora vez em quando e que me dá uma baita vontade de jogar pela janela. Enfim, vou fechar esses parênteses porque esse post não é sobre essa criatura amalucada. Em breve, vocês saberão mais dela.
Como se não bastasse, durante o jantar de ontem, enquanto acabava de publicar o post sobre palavrões, foi a vez do meu irmão soltar uma bomba do mesmo naipe. Uma amiga dele está com câncer de mama e, é muito provável que terá que fazer uma mastectomia. E isso antes dos quarenta! Meu outro irmão também contou que uma amiga dele está com um tumor cerebral e que depois da operação, não voltou a ser a mesma de antes. Houve perda de coordenação motora e a fala está comprometida. Minha amiga Fabi também me contou desolada que uma amiga dela está com câncer e que o tumor já tomou alguns órgãos. E detalhe, ela deve beirar os 30 e está arrumando as coisas para casar.
A essa altura, vocês devem estar se perguntando: por que cargas d’água você resolveu reunir tanta desgraça em apenas um post? Eu respondo: ouvi certa vez que essa doença – que como dizem os mais antigos, não se fala o nome – cansa. E como! Cansa o pobre afetado, cansa os familiares, amigos, médicos, enfermeiras e todos aqueles que, direta ou indiretamente, estão envolvidos. O cansaço é geral. É uma coisa que não se explica. É algo que você sabe o desfecho que terá, principalmente em casos graves. É uma amargura que dá ao vermos que aquela pessoa já não é mais a mesma.
Lembro do meu pai: um homem de ossos largos – estrutura que felizmente ou infelizmente, herdei dele – que lhe conferiam um aspecto forte, corpulento. É claro que ele tinha aquela barriguinha característica que se adquire com a certa idade, mas não era gordo, era forte. Vi aquela pessoa emagrecer com o passar do tempo, perder a barriga da qual meus irmãos e eu tirávamos tanto sarro. Vi-o ficar flácido, fraco. O sorriso e o brilho no olhar desapareceram. Era possível ver as "saboneteiras" bem profundas, as patelas saltavam dos joelhos. Era péssimo. Eu via aquela pessoa, que passava longos períodos deitado no canto da cama e, mesmo que estivesse acordado, ficava longos momentos sem mencionar uma palavra. Aquilo me cansava. Cansava a alma de uma forma que, mesmo que dormisse séculos, acho que jamais conseguiria me recuperar. A missão dele foi cumprida na Terra e hoje ele está feliz, passeando em algum jardim, apreciando as flores que ele tanto amava.
No entanto, e aquelas pessoas que vão e voltam do hospital, numa agonia prolongada? Vide o exemplo do nosso ex-vice presidente, José de Alencar, que já tirou um sem-número de tumores e que tem ido e voltado de uma sala de cirurgia. Acredito que a família dele deve estar exausta. Minha irmã – olha ela aí de novo – sempre que ouvimos notícias dele, diz: “tenho um dó da família”. Eu também tenho dó da família. Dó, talvez, seja a palavra errada: o que sentimos é, na verdade, compaixão. Compaixão pelo sofrimento daquelas pessoas. Afinal, sabemos exatamente o que eles estão passando e desejo do meu coração bagunçado que tenham força, discernimento, paciência, paz de espírito e, acima de tudo, FÉ.
Para àqueles que citei no começo, rogo a Deus que saibam entender o porquê das coisas e que aceitem esses desígnios Divinos e que também tenham FÉ. Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”, mas acredito firmemente que a escrita está correta, mas nós, seres humanos é que somos tortos e míopes e não conseguimos entender o que está escrito ali.
Outra coisa: ao contrário do que disse, nesse caso, o cansaço da alma não desaparece com o sono de séculos. Quando menos nos dermos conta, a saudade botou o pé na porta, expulsa o cansaço e, com uma folga sem precedentes, chega ocupando todos os espaços. Já adianto que não ela não vai embora. Assim, o jeito é conviver com ela. Pelo menos, é algo bem melhor que o cansaço.
Amigos queridos e leitores desse blog,
Minha amiga Fabi, que citei lá em cima, tentou deixar um comentário sobre esse post, mas não conseguiu e escreveu tudo no MSN. Tomo a liberdade de reproduzir aqui as belas palavras que ela me deixou. Espero que vocês se emocionem assim como eu:
"Dê, chego a achar que a expressão 'Deus dá o frio conforme o cobertor' se aplica aí também. A família adoece junto, a família emagrece (em esperança) junto, a família se aplica quimio junto (e se diminui, se esvazia, se perde em pensamentos).
A gente chora, sofre, cai, tudo junto e quando dizem: eu sei o que vc está passando é quase passível de riso. Ninguém sabe o que estamos passando se não tiver passado, se não tiver chorado por um querido em situação similar. Dói demais e, como vc diz, é um cansaço que se vc dormir uma vida não recupera, mas Deus Amor nos preenche com outras coisas. No seu caso, saudade; no meu, esperança. Mas a marquinha fica dentro de nós, nunca mais olharemos para um paciente de câncer sem sentir uma imensa compaixão, sem sentir ainda que, por alguns segundos, a dor junto com aquela mãe, pai, filho, filha, irmão, irmã... O câncer transforma a vida de uma tal maneira que fico pensando qual seria a definição mais apropriada para essa doença. O que penso é que nenhum paciente + família saem do caos como entraram, não é? Que essa transformção seja positiva, que aprendamos, que torçamos, que nos abracemos. Quero cada vez mais colocar na minha vida a experiência do abraço, da presença física ou não na vida de alguém. Não adianta lamentarmos a perda com a culpa de não ter abraçado mais, estado mais, feito mais.
Que diante da morte a gente possa erguer a cabeça e dizer: 'eu estive, eu abracei, eu fiz, eu partilhei, eu amei!' O dever cumprido deve, junto com a saudade, ocupar todos os buracos que formam na alma da família que padece junto.
Ufa! por hj é só pessoal! Vc já me fez refletir muito, vamos celebrar o dia de hoje.
Luz e paz para vc, minha amiga tão querida!
Beijossssssssss"
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